Ou: como aprendemos a parar de nos preocupar e amar o processo

O começo que ninguém pediu

O plantel de 2026 já superou o início do elenco de 2025 — só que na direção errada. Após vencer o primeiro jogo da temporada com uma atuação brilhante de Garrett Crochet (seis entradas perfeitas, oito strikeouts, zero corridas), o elenco atual emendou cinco derrotas consecutivas. Em 2025, o Red Sox começou 1-4 em março; agora estamos em 1-5 — o pior início em seis jogos desde 2019. O céu agora é o limite, até porque o poço já está bem perto.

Mas ainda é muito cedo para desespero. Vamos lembrar que até os poderosos Dodgers do ano passado — aqueles mesmos que levantaram o troféu do World Series contra os Blue Jays — tiveram uma sequência de sete derrotas seguidas em julho. Começar o ano mal, em especial para um time que investiu pesado em arremessadores, não é o fim. É, literalmente, o início.

Colocando em perspectiva

Inícios de temporada significam arremessadores ainda “frios” — metafórica e fisicamente. Os dias são mais gelados e acabam afetando o desempenho dos arremessos; o limite de entradas para um abridor é controlado com cautela, impedindo que ele entregue jogos longos. É a natureza do beisebol em março e abril.

Para exemplificar: Paul Skenes, o atual Cy Young da Liga Nacional, já abriu dois jogos em 2026. O primeiro foi desastroso: cedeu cinco corridas e não completou sequer a primeira entrada, sendo sacado após registrar apenas dois outs em 37 arremessos contra o Mets. O segundo, contra o Reds, foi bem melhor: cedeu apenas uma corrida em cinco entradas com cinco strikeouts e 77 arremessos — mas foi sacado mesmo com este desempenho fabuloso. Se o melhor arremessador do beisebolas também está calibrando, por que nosso time não estaria?

O ataque gelado

Isso não significa que o problema do time é apenas na rotação (embora este seja o principal fator até o momento). Nossos rebatedores começaram o ano com desempenho abaixo do esperado — e os números confirmam.

RISP (corredores em posição de anotar): Nosso ataque é o 23º time que mais gerou corredores em posição de pontuar (o que já é ruim) e tem um OPS de .480 nestas situações — 0.5 pontos pior que o 29º time. Ou seja, além de estarmos gerando poucos corredores, não estamos conseguindo empurrá-los para casa com eficiência.

Strikeouts: Somos o 27º time na taxa de strikeout por jogo — e o pior nos últimos três jogos, com uma média de 12-13 Ks por partida durante a série em Houston. Na sequência de cinco derrotas, o time acumulou 60 strikeouts.

Home Runs e bases: Somos o 15º em número de home runs, com média de um por jogo, e apenas o 21º em alcançar bases. E quem não chega em base, não rouba: somos apenas o 25º em tentativas de roubo.

O ataque vem confirmando o que já desconfiávamos e não coloca medo em ninguém. O time rebate apenas .208 na temporada. Mas a surpresa não é essa.

A rotação que era para ser nossa força…

Nosso plantel foi construído para vencer com arremessos. Tido como uma das melhores rotações da liga, esse título existe apenas no papel por enquanto. Somos o 27º em corridas cedidas por jogo, o 15º em strikeouts por jogo e o 25º em permitir jogadores chegarem em base. A rotação como um todo carrega uma ERA coletiva de 5.22. E para piorar, a defesa — que liderou a MLB com 116 erros em 2025 — já cometeu seis erros em seis jogos neste ano.

Crochet: o ace que precisamos

Nosso ace, Crochet, teve o único jogo de destaque positivo da rotação até agora, logo em sua estreia: seis entradas sem corridas, oito strikeouts, três rebatidas permitidas. A cena clássica do dia veio no sexto inning: bases carregadas, um out, e Crochet eliminou Eugenio Suárez e Spencer Steer em sequência, incluindo duas bolas rápidas de 98.3 mph. O Pig estava de volta.

Depois disso, o segundo jogo contra os Astros foi outro nível de dificuldade: cinco corridas (quatro merecidas) em cinco entradas, coroadas por um home run de três corridas de Carlos Correa. Não precisamos ficar desesperados. Jogos ruins acontecem, e a tendência é que teremos mais atuações como a primeira do que como a segunda. O próprio Crochet assumiu a responsabilidade: “É embaraçoso”, disse. “Eu deveria ter sido o freio, e deixei os caras na mão.” Accountability de um ace é sempre bom sinal.

Early: a história de Cinderella

Connelly Early teve uma chance no montinho até agora e mostrou estar pronto para seguir seu início bem-sucedido de carreira. O canhoto de 23 anos fez 5 1/3 entradas contra os Reds, cedendo apenas uma corrida e cinco rebatidas com seis strikeouts em 96 arremessos (61 strikes). Com isso, tornou-se o arremessador mais jovem do Red Sox a registrar pelo menos cinco strikeouts cedendo uma corrida ou menos em um dos três primeiros jogos da temporada desde que um tal de Babe Ruth o fez em 1916. Não é má companhia.

É uma história de Cinderela e a gente torce para não virar abóbora — mas a verdade é que Early é um jogador novo que, até bem pouco tempo atrás, não estava nos radares dos olheiros. Uma quinta rodada de draft em 2023, ele chegou às grandes ligas em setembro de 2025, manteve uma ERA de 2.33 em quatro jogos e ainda arremessou nos playoffs contra os Yankees no Yankee Stadium. O garoto não se intimida.

Os desastres (até o momento)

Sonny Gray: nervosismo de estreia

Sonny Gray teve uma atuação ruim tanto nos seus arremessos quanto na defesa. Foram quatro corridas (três merecidas) em quatro entradas, com 80 arremessos e 51 strikes. Além da performance no montinho, Gray também se atrapalhou defensivamente ao tentar eliminar um corredor no homeplate e perder o controle da bola — contribuindo para uma corrida não-merecida. Trevor Story também contribuiu com um erro no mesmo jogo.

No entanto, as métricas complementares indicam que a partida não foi tão ruim quanto aparece. Cinco strikeouts em quatro entradas é uma taxa de Ks de respeito, e boa parte do estrago veio de um primeiro inning caótico: apenas 19 dos 35 arremessos foram strikes. Nervosismo de estreia? Ferrugem? Fato é que, depois daquela primeira entrada, o restante da partida foi bem mais controlado, com 32 strikes em 45 arremessos. O Gray que esperamos é aquele das últimas três temporadas, com mais de 200 strikeouts em duas delas. A estreia no home opener contra os Padres será a chance de virar a página.

Ranger Suárez: o botão de pânico

Ranger Suárez, por sua vez, apertou todos os botões vermelhos e levantou todas as bandeiras de pânico que podia na sua estreia contra os Astros. Ceder quatro corridas em 4 1/3 entradas, com sete rebatidas e dois home runs (Yordan Alvarez e Brice Matthews), é ruim. Quando você alia isso a apenas três strikeouts em 76 arremessos, aí sim bate a preocupação.

Mas calma: dá para respirar. Suárez é historicamente um arremessador que cede poucos home runs — os dois HRs na estreia fogem do padrão. Seus números de WHIP e FIP têm sido consistentes desde 2022, e com apenas 30 anos, não estamos falando de qualquer regressão por idade. Além disso, ele já passou por isso antes: em 2025, voltou de lesão e cedeu sete corridas em 3.2 entradas na estreia — e depois emendou dez quality starts seguidos. O histórico joga a favor. Dá para acreditar que se tratou de apenas um jogo ruim.

Bullpen: Oviedo e Weissert no holofote errado

Nosso bullpen também tem dois nomes que chamaram atenção negativa. Johan Oviedo entrou no jogo contra os Astros quando já estávamos em desvantagem de 4-0, fazendo piggyback após Suárez, e só piorou o resultado: cedeu mais quatro corridas (incluindo dois home runs solo de José Altuve) em 3 2/3 entradas. Preocupante também foi a queda de velocidade: sua bola rápida marcou média de 93 mph, abaixo dos 95.5 do ano passado. O próprio Oviedo admitiu surpresa com a queda.

Já Greg Weissert cedeu corridas nos dois primeiros jogos que disputou na série contra os Reds. No sábado, permitiu um home run solo que ajudou a consolidar a desvantagem na eventual derrota de 6-5 em 11 entradas (embora o loss tenha ido para Justin Slaten, que cedeu o hit decisivo). No domingo, foi ainda pior: Eugenio Suárez lhe acertou um home run de três corridas logo após a saída de Connelly Early, virando o jogo de 2-0 para 3-2 e selando a derrota. Duas participações, zero confiança transmitida.

O que vem pela frente

Com certeza teremos desempenho melhor dos nossos abridores. Os limites de entradas vão aumentando conforme a temporada avança, e arremessadores de elite como Crochet e Gray vão encontrar seu ritmo. Temos ainda que lembrar que Payton Tolle está na Triple-A caso seja necessário, e o próprio Oviedo é um abridor comprovado que pode voltar à rotação se a situação exigir. Brayan Bello, que fez sua estreia contra os Astros e teve além de tudo o azar de um árbitro perder a contagem, é outro nome que tende a evoluir.

O enigma é o quanto podemos esperar de melhora no nosso ataque. A bateria de receptores começou o ano produzindo (Connor Wong tem sido um ponto positivo), mas há indícios de problemas disciplinares — Carlos Narváez foi misteriosamente riscado do lineup na série final em Houston, e Cora se recusou a explicar o motivo. Nosso tão falado outfield ainda não mostrou impacto: dos cinco jogadores, apenas Wilyer Abreu tem produzido com consistência (já com dois HRs e rebatidas claé em momentos importantes). Roman Anthony brilhou no Opening Day com três rebatidas, mas ainda busca regularidade.

O lado esquerdo do infield está com WAR de -0.6, e o lado direito, embora melhor em 0.2, ainda ostenta um OPS coletivo na casa dos .550. Caleb Durbin começou a temporada sem rebatidas em 14 at-bats antes de finalmente se ajustar. Masataka Yoshida também está devendo rebatida, embora já tenha conseguido 6 walks, sendo o líder do time neste quesito.

O gelo não dura para sempre

Mais uma vez, começamos o ano com um ataque que veio gelado. A parte boa é que esse gelo nunca dura para sempre — e há nomes como Kristian Campbell, Nolan Eaton e Nick Sogard na Triple-A que podem ajudar a oxigenar o time principal quando chegar a hora. O time finalmente volta para Fenway na sexta-feira para o home opener contra os Padres, e lá, diante da torcida, será a chance de resetar.

Resta saber o quanto iremos sofrer em abril antes do time engrenar. Mas lembremos: 162 jogos é uma maratona, não um sprint. Aqueles Dodgers que perderam sete seguidas em julho ganharam o World Series em outubro. O Red Sox de 2025 começou com recorde de 1-4 em março e terminou com 89 vitórias e uma vaga nos playoffs.

O começo é ruim. Mas é só o começo. E se tem uma coisa que torcedor do Red Sox sabe fazer, é sofrer em abril para comemorar em outubro. Pelo menos, essa é a esperança.

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